Carlos Drummond de Andrade escreveu uma vez: “Eu não devia te dizer/mas essa lua/mas esse conhaque/põem a gente comovido como o diabo”. Acrescento à lua e à bebida um outro elemento: a música. Tenho uma alma musical. Quando passo por momentos de muita sensibilidade, ou de transbordamento de sentimentos, imediatamente penso em uma música para aquele instante. Penso em uma, invadem-me outras tantas. Meu coração não só bate, como também acompanha o ritmo de todos os sentidos que passam pelo meu corpo, e organiza numa sinfonia os acordes de tudo o que sou, ou o que estou.
Para cada momento da minha vida que merece ser lembrado, há uma trilha sonora. E quando eu penso que a música é minha, eu me dou conta que sou mais uma que se deixa levar por esse clichê universal. As músicas trazem em si sentimentos humanos típicos, e por que eu ainda acho que a música foi feita para mim? A identidade se estabelece, eu tenho a sua posse. Mas há algo mais que a faz única para mim: há uma associação perfeita entre ela e a imagem mental que desperta com seus acordes, com sua letra, com suas rimas. Há músicas das quais já não me lembro mais, outras de que jamais me esquecerei. “How can dance when our earth is burning? How do sleep whilr our beds are burning?” Como seguir fora do eixo? Como olhar um para o outro e insistir que tudo está bem? Não, meu amor. Nossa história se encerra com um “The end” e com todos os créditos que nos pertenceram.
Tantas vezes ouvi que “a vida passa num instante, e um instante é muito pouco pra sonhar”. E o instante é efêmero, nasce moribundo. O sonho se eterniza para além da vida, e se o amor lhe foge, efêmero é, também, o amor. “Que seja eterno enquanto dure”, assim já dizia o poeta. E se durar do outono à primavera, a promessa de eternidade já terá valido a pena. Se não for assim, por qual razão passar a existência como “um cego procurando a luz na imensidão do paraíso”?
Mas as palavras de Drummond não saem da minha cabeça, e o diabo teria inveja da minha comoção e sentimentalismo. O diabo que vá ao diabo, também... Hipérbole do poeta para desafiar minha capacidade de sentir. E eu sinto, e me emociono, e me vem a nostalgia, e as músicas me invadem e se atropelam. As músicas tomam forma, querem propagar pelo ar os sentimentos que se aprisionam dentro de mim. E se, por acaso, for surpreendido por um sopro de brisa, e o som te lembrar algo como “Hoje eu preciso (...) olhar teus olhos de promessas fáceis e te beijar na boca de um jeito que te faça rir”, saberá que uma música da minha trilha sonora fugiu de mim para encontrar meu pensamento onde eu deveria estar.
“Ne me quitte pas, je t’inventerai des mots insensés que tu comprendras”, não tão absurdas que não possa, com sua criatividade, dar sentido a elas, mas absurdas o bastante para que, neste momento, seja obrigado a pensar em mim... E então, quando isto acontecer, eu estarei em sintonia com você, numa dimensão etérea de silêncio e sons. E, neste momento, “je vois la vie em rose”.
=======> amei esse texto... da minha prima linda Luiza!!!
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